sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Clube da Leitura - Estudando os cadernos do PNAIC

Estamos iniciando uma nova etapa: a criação de  um Clube de Leitura para continuidade dos estudos dos cadernos. Inicialmente tem uma síntese do tema  Currículo para aprofundarmos. O objetivo do clube é que possamos enriquecer o tema a partir da leitura, reflexão e comentários sobre o assunto. Participe deixando sua contribuição no comentário e enriqueça nossos estudos.


UNIDADE 1

CURRÍCULO NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO: PRINCÍPIOS GERAIS

MOREIRA E SILVA, 1994
Currículo: criação, recriação, contestação e transgressão
Nessa perspectiva,  deixa de ser um veículo que transporta algo a ser transmitido e absorvido.
Produção e reprodução da cultura a partir, muitas vezes, de conflitos.
Nova postura: abertura para as manifestações culturais; tirar proveito da riqueza cultural da sala de aula; estabelecer diferenças nas atividades pedagógicas.
Desafio: educar na  diversidade. Necessidade de conhecer cada estudante ( suas necessidades, potencialidades, interesses, experiências passadas, etc); identificar necessidades de aprendizagem específicas; planejar as aulas por meio de uma didática provocativa  e de gestão do tempo de modo que todos os alunos participem efetivamente da aula : quem impõe o ritmo na sala de aula é o professor,  . ( Grifo meu).


CONCEPÇÕES DE ALFABETIZAÇÃO:
O QUE ENSINAR NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO?

FERREIRO E TEBEROSKY ,  1984 – FERREIRO,  1985
O processo de apropriação do sistema de escrita alfabética passa por diferentes fases relacionadas à  forma de concepção.

Níveis psicogenéticos:
OS 1 – Escrever é desenhar;  ler é interpretar imagens ou figuras;
OS 2 -  Ainda lhe é obscuro como se estabelece a correspondência entre escrita e pensamento; uma página com letras pode corresponder a uma só palavra;
Podemos dizer que algumas das ideias veiculadas, nos níveis pré-silábicos, são  as seguintes:
“Está escrito o que eu desejei escrever?”
“Escrita sem  imagem não dá para ler, é  pura letra.”
“Só se escrevem substantivos; verbos e outras palavras não têm consistência para que se os escreva.”
“Letras ou sílabas não se repetem numa  mesma palavra. Isto não fica bem.”
“Só se leem palavras com três letras ou mais.”
“Letra e número são a mesma coisa, são sinais parecidos.”
“A escrita das palavras não é estável. Numa frase ou num texto o código pode mudar.”
“Basta ter a inicial para caracterizar uma palavra.”
“A ordem das letras na palavra não é importante. Basta que estejam todas elas.”
SILÁBICO – Cada letra (ou qualquer outro sinal gráfico)  corresponde uma sílaba com valor sonoro ou não, ou, ainda, uma letra pode corresponder a uma palavra  para a escrita de frases; desconhecimento das unidades linguísticas;
ALFABÉTICO -  Uso de duas letras ( ou outros sinais gráficos) para a correspondência de uma sílaba; vinculação “pronúncia construção alfabética da sílaba”.


FERREIRO E TEBEROSKY, 1984 – REGO, 1988
Interação com a escrita ( usos e funções) para a apropriação do sistema de escrita alfabética. As práticas diferenciadas de leitura e escrita levam a um maior ou menor  conhecimento sobre a “linguagem que usamos para escrever” textos de diferentes gêneros e sobre os diferentes usos sociais que damos a eles.

SOARES, 1998
Novo conceito de alfabetização: o de letramento que significa o estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e escrever. Ensino do Sistema de Escrita Alfabética inserido em práticas de letramento.

Alfabetização e letramento: o primeiro corresponde à ação de ensinar/aprender a ler e a escrever; o segundo, considera  como estado ou a condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita.

“Perspectiva de vivência das crianças, desde cedo, com atividades que as levem a pensar sobre as características do nosso sistema de escrita, de forma reflexiva, lúdica, inseridas em atividades de leitura e escrita de diferentes textos”.

A apropriação da escrita alfabética não garante a alfabetização, por isso é necessário a definição dos direitos de aprendizagem relacionados aos diferentes eixos do ensino da Língua Portuguesa desenvolvidos ao longo dos três primeiros anos do E.F.


CURRÍCULO NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO:
AMPLIANDO O DIREITO DE APRENDIZAGEM A TODAS AS CRIANÇAS


MOREIRA E CANDAU, 2007
 Necessidade de recuperar o direito do estudante ao conhecimento; recuperar os vínculos entre  cultura, currículo e aprendizagem.
Considerar os direitos de aprendizagem como um compromisso social  de modo a garantir que até o 3º ano do E.F. todos estejam alfabetizados.
O papel do professor é fundamental. Ele é um dos grandes artífices da construção dos currículos que se materializam nas escolas e sala de aula.

MARINHO, 2008
 A escrita é um produto cultural e o ato de ler e escrever são patrimônios culturais que devem ser disponibilizados a todos.
Reorganização temporal e espacial  do currículo no ciclo de alfabetização: uma nova forma de conceber os percursos de aprendizagem das crianças.


Deve-se organizar os tempos de aprendizagem na alfabetização na relação das diversas áreas do conhecimento?
Deve-se priorizar os conhecimentos relacionados  diretamente com a alfabetização?

O plano curricular no ciclo de alfabetização aponta para a necessidade de planejamento da organização do tempo sem fragmentar as áreas do conhecimento. A escola precisa preparar-se para ampliar as possibilidades dos estudantes de  terem acesso a diferentes saberes.

Planejamento pedagógico de modo articulado  pode ser retomado e aprofundado de um ano para o outro em diferentes níveis.


A COMPLEXIDADE DA APRENDIZAGEM DO SISTEMA DE ESCRITA ALFABÉTICA:
AMPLIAÇÃO DO TEMPO PARA A CONSOLIDAÇÃO DA LEITURA
E DA ESCRITA PELA CRIANÇA

A escrita é também um instrumento de poder. A alfabetização pode possibilitar o engajamento das crianças em processos de interação variados em que elas sejam protagonistas e possam agir para a transformação de suas próprias vidas. Embora  alfabetizar seja uma tarefa complexa, é possível ensinar a ler  e a escrever de forma prazerosa, contextualizada e significativa  através de brincadeiras que estimulem a reflexão sobre o sistema de escrita alfabética. Mas não é fácil.

Concepção de alfabético e alfabetizado.
Criança alfabética consegue compreender o sistema  sendo capaz de ler e escrever palavras, frases e pequenos textos, mesmos com dificuldades.
Criança alfabetizada, além de ser alfabética, é capaz de ler e produzir textos de diferentes gêneros.
Para que ocorra o processo de apropriação e consolidação da leitura e da escrita, é preciso considerar, para cada ano do ciclo de alfabetização: o que queremos ensinar, os conhecimentos já construídos pelos alunos, a natureza do objeto do conhecimento a ser enfocado, como se organiza o sistema de escrita alfabética (SEA) e como os estudantes se apropriam dele.

Leitura e produção de textos: diferentes gêneros desde o 1º ano para que no final do 3º ano as crianças possam ler e produzir textos com autonomia.
Sistema de Escrita alfabética: as práticas de ensino da leitura e da escrita devem possibilitar à criança a construção da base alfabética no 1º ano. E nos 2º e 3º anos a consolidação das correspondências som-grafia por meio de diversas situações significativas e contextualizadas de escritas de palavras e textos ( ver quando dos direitos e aprendizagens).


CRUZ, 2008
Resultados de pesquisas realizadas sobre as práticas docentes  de alfabetização e letramento no 1º ciclo indicaram a ocorrência de uma progressão das aprendizagens das crianças entre os três anos do 1º ciclo a partir  de um planejamento para a maior parte do tempo voltado para atividades de leitura e escrita contextualizadas e significativas desde o 1º ano. Na prática das professoras pesquisadas, o 1º ano apresentou a maior quantidade de  atividades de apropriação do SEA e de reflexões fonológicas, em comparação com os outros anos, assim como uma ênfase nos eixos de leitura e produção textual graduando-os progressivamente de acordo com os três anos do ciclo. 



PONTO DE PARTIDA: CURRÍCULO NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO

FERRAÇO, 2008
O currículo é construído na prática diária de professores e, portanto, nem sempre reflete exatamente o que os documentos oficiais orientam, mas também não pode ser entendido como decisão de cada um. Precisa ser, na verdade, fruto de construções coletivas que tenham como norte princípios partilhados de forma a garantir os direitos de aprendizagem dos estudantes.

O currículo na ciclo de alfabetização deve garantir que, até os oito anos de idade as crianças tenham se apropriado dos conhecimentos necessários à escrita e à leitura de textos que circulam socialmente.

LEAL E BRANDÃO, 2012
Análise de 14 documentos curriculares de secretarias estaduais  de educação e 12 de secretarias municipais de capitais brasileiras que apontam para a escrita e a leitura de forma autônoma desde os anos iniciais do E.F. Portanto, as crianças precisam ser alfabetizadas logo no início da Educação Básica.

É possível fazer com que alguns conhecimentos e algumas capacidades cognitivas possam fazer parte de acordos firmados nas escolas públicas que tenham como finalidade a construção de situações favoráveis à construção  de situações de aprendizagem, em uma perspectiva inclusiva, isto é, uma perspectiva de garantia de aprendizagem para todos, mesmo com uma diversidade cultural tão ampla como a que temos no Brasil.

Currículo inclusivo: rompe com os valores relativos à competitividade, ao individualismo, à busca de vantagens individuais. Tem como princípio a definição de alguns conhecimentos a serem apropriados por todos os estudantes respeitando as singularidades, diferenças individuais e de grupos sociais.

Então, como garantir aprendizagem a todos?

COMÊNIO (Didática Magna – séc. XVII) Ensinar tudo a todos.


Diante dessa impossibilidade, há conhecimentos que podem ser vistos como fundamentais na Educação Básica. Necessidade de investir na busca de garantir alguns diretos de aprendizagem a todos e favorecer condições de aprendizagem coletivas, singulares a cada comunidade, a cada grupo social.

Reconhecimento das diferenças entre os sujeitos – esforço conjunto de todos os envolvidos no processo.
Ação cuidadosamente planejada/ avaliação constante/ re-encaminhamentos.
Planejar a organização do tempo escolar – considerar os “tempos de aprendizagem” dos alunos.
Favorecer aprendizagens significativas; romper com excesso de  conteúdo e pouca  profundidade;  atividade única a todos.
Trabalho interdisciplinar: áreas do conhecimento tratadas de forma articulada.



PAULO FREIRE
Glossário de palavras – palavras geradoras: escolha feita após uma ampla pesquisa em torno do cotidiano dos alunos e de suas demandas de vida. Palavras significativas, importantes para os sujeitos envolvidos na empreitada do ensino e aprendizagem da língua.
Interdisciplinaridade: interesses e curiosidades comuns – propulsores do ensino. Alfabetização a partir de algo concreto para  os sujeitos que estão engajados em tal processo.
A alfabetização se define pela necessidade de se registrar conversas, observações feitas no grupo, que precisam ser gravadas como forma de  produzir memórias, documentos da respeito do que se discute e do que se aprende na escola. Participação ativa das crianças. Sujeitos ativos do processo de ensino.



ALFABETIZAÇÃO: O QUE ENSINAR NO TERCEIRO ANO DO E.F.

Alfabetizar é uma tarefa complexa, mas pode ser prazerosa. É possível, sim, aprender a ler e escrever por meio de brincadeiras, por meio de reflexões, por meio de um trabalho solidário.


PIAGET, 1973 – 1987 – VYGOTSKY, 1989a – 1989b
A aprendizagem ocorre por meio da atividade do sujeito aprendiz. “O indivíduo não poderia organizar suas operações num todo coerente se ele não se engajasse nas trocas e cooperação com o outro”.  A interação com o outro no processo de aprendizagem faz desenvolver a linguagem em função da necessidade externa do indivíduo para se comunicar. Importante destacar a dimensão da cultura nessa interação.

A aprendizagem é um fenômeno social. Nela, a linguagem e a cultura têm papel de destaque, pois envolve experiência pessoal e experiência da humanidade. Nessa perspectiva a ideia de que a ampliação das capacidades de leitura, escrita, fala e escuta são direitos de aprendizagem fundamentais e tais domínios são importantes não somente para a construção dos sujeitos como seres de linguagem, mas também para a aprendizagem dos conceitos relativos aos diferentes componentes que compõem o currículo da Educação Básica. Destaco aqui, o trabalho em pequenos  grupos como forma de buscar  garantir os direitos de aprendizagem a todos os alunos.

FERREIRO E TEBEROSKY, 1983
Durante seu percurso  de aprendizagem,  as crianças elaboram hipóteses sobre como a escrita funciona, ou seja, em lugar de apenas memorizar relações entre letras e sons, elas tentam compreender as regularidades do nosso sistema de escrita. Desse modo, podemos dizer que quanto mais motivado o aprendiz estiver, mais concentrado na busca de desvendar os mistérios da escrita ele estará.


Sendo assim, escola deve criar condições favoráveis de aproximação da cultura escolar e da cultura própria de outras esferas de interação social assim como propiciar condições de aprendizagem saudáveis, em que as crianças não se sintam ameaçadas e que possam ter assegurado o direito de errar e tentar fazer descobertas com a proteção do professor.

Paralelamente ao domínio do sistema de escrita o desenvolvimento de capacidades de compreensão e produção de textos orais e escritos, de diferentes gêneros textuais, também requer a participação em situações favoráveis de aprendizagem, das quais as crianças participem se modo ativo, construindo imagens positivas de si. Para isso, precisam participar de situações em que faça sentido falar/escutar, ler/escrever, além se ser encorajadas a ler e escrever os textos, valorizadas em suas tentativas, auxiliadas pelos professores e colegas, em situações de aprendizagem colaborativas.


Necessidade de se ter clareza sobre quais direitos precisam ser consolidados e concluídos em determinado período escolar e quais precisam ser continuamente ampliados. Durante toda a vida estamos ampliando nossas capacidades de ler e de produzir textos orais e escritos, pois sempre nos deparamos com situações novas em que gêneros textuais emergem frente a elas.


BAKHTIN, 1997
Todo texto remete a outro anterior e sempre remeterá a um próximo. Assim, estamos sempre ampliando tal aprendizagem.


Em relação ao domínio do sistema alfabético, ocorre algo diferente. Alguns conhecimentos precisam ser dominados logo no início da escolarização.

SOARES, 2003, alerta que a falta de atenção a essa delimitação pode acarretar consequências perigosas para o processo educativo.


Nos quadros de direitos de aprendizagem os  conhecimentos e habilidades relativos à aprendizagem da base alfabética são de natureza diferente dos conhecimentos e habilidades relativos aos eixos de produção e compreensão de textos, pois podem ser aprendidos em um tempo relativamente curto.


Desse modo, em relação à leitura e à escrita, no terceiro ano, é preciso organizar o tempo de modo que:
  1. Sejam planejadas situações de aprendizagem acerca do sistema de escrita, caso algumas crianças ainda não compreendam os princípios do Sistema de Escrita Alfabética.
  2. Sejam planejadas situações de aprendizagem que ajudem as crianças a consolidar as correspondências grafofônicas (relações entre letra e fonemas), seja na leitura ou na escrita.
  3. Sejam planejadas situações de aprendizagem da leitura e de produção de textos, individuais e coletivas, de modo articulado ao eixo de análise linguística.
  4. Sejam planejadas situações de aprendizagem da oralidade, sobretudo da oralidade, sobretudo em situações mais formais, de modo articulado ao eixo de análise linguística.

Ver proposta p. 16 - 3º ano - unid.1


Um comentário:

  1. Como educadora penso que o tema Currículo precisa sempre estar em discussão, para que possamos movimentá-lo ao ponto dele se tornar realidade em nossos planejamentos diários em sala de aula. E que este garanta a aprendizagem a todos os nossos alunos.

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